Wednesday, March 11, 2026
O mundo não gira, ele capota.
Monday, November 24, 2025
Sabores do Alentejo: minhas primeiras descobertas gastronômicas em Portugal
Não são fotos artísticas — são registros cheios de significado. Cada prato que provei desde que cheguei ao Alentejo carrega um pouco da forma calorosa como tenho sido recebida em Portugal. E, sinceramente, preciso dizer: a culinária alentejana é apaixonante, e esse é um elogio genuíno vindo de uma paraense raiz.
Desde o primeiro dia, percebi que a comida aqui é mais do que refeição; é gesto de afeto, é convite, é conversa. Talvez eu esteja me saindo bem nessa nova fase porque cresci com uma alimentação de origem ribeirinha — quem vem do Norte do Brasil sabe bem o que isso quer dizer. A gente aprende cedo a respeitar o que vem da terra, do rio, da caça… e a comer sem frescura.
E foi exatamente essa flexibilidade que me salvou logo na primeira noite: no jantar de recepção oferecido pelo amigo de infância do meu sogro, fui surpreendida com um coelho guisado. Não vou mentir, não gostei— mas provei, com dignidade e curiosidade.
No dia que aqui cheguei, meu sogro me levou à tradicional Taberna do Ismael, onde experimentei dois clássicos:
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Cabeça de borrego — visual desafiador, sabor surpreendentemente bom.
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Enguia ao molho de tomate — aqui já sabia que não seria meu prato preferido.
E uma coisa que aprendi rápido: 99% das refeições portuguesas vêm acompanhadas de vinho e terminam com um café expresso forte. É tradição, é protocolo, é amor puro pelos rituais da mesa.
A verdade é que a comida alentejana tem esse poder: é saborosa, é afetiva, é marcante. E isso toca quem é nortista — porque também somos assim: nosso sabor é memória, é calor humano, é história.
Sigo agora na expectativa das próximas experiências gastronómicas que este país tão generoso ainda vai me oferecer.
Os pratos que marcaram minha chegada (em ordem de descoberta)
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Paio
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Feijoada de choco
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Sardinha fresca com batatas
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Castanhas portuguesas
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Carne de porco à alentejana
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Açorda alentejana
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Costela de borrego e migas com couve
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Bacalhau com migas (receita do meu sogro)
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Sardinha com pasta de espinafre (receita do meu sogro)
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Choco frito — direto de Setúbal, no famoso Léo Rei do Choco Frito (chegue cedo!)
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Moelas refogadas com vinho tinto
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Pequeno-almoço do meu marido: iogurte com frutas da estação (eu continuo preferindo café!)
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Comida vegana em Beja
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Cozido à Portuguesa, do restaurante O Trovador, em Monte Velhos
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Degustação de vinhos com pequenos arranjos
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Feijoada com lulinha, chocos, polvo e camarões — confia: ficou absolutamente deliciosa
e 18. Café expresso — sempre, sem exceção.
Thursday, January 18, 2024
Um antídoto para o hodierno furor dopaminérgico da Era Digital
Talvez estejamos todos exauridos dessa velocidade
que nos metemos na vida, mas poucos são loucos o bastante para verberar.
Vou te dar alguns exemplos de sintomas dessa exaustão:
- Suspiros constantes e cansados, como se tivesse
sendo interrogado por algum namorado que descobriu uma das suas traições, ou
seja, tá ruim, mas poderia estar pior e, mesmo assim, te deixa cansada;
- Sente que está explorando seus olhos, fazendo
deles escravos da sua ansiedade, fazendo com que ele te entregue doses de
dopaminas constantes e permanentes, enquanto teu cérebro acha que está
descansando, só porque ele não está participando ativamente da atividade;
- Vontade de pisar na terra, tomar banho de chuva,
tomar um chá olhando a chuva cair como se não tivesse um boleto para pagar ou
como se não tivesse smartphone, é nessa hora que secretamente desejas voltar
aos anos 90 (se você veio de lá);
- Começa a buscar referências de hobbies que tenham
conexão com a vida analógica, talvez fazer uma colagem, criar miniaturas,
crochetar, escolher vinis.
- Tenta resgatar certos hábitos como ler blogs e
voltar escrever no seu 👀
Bom, o fato é que eu estou cansada, quero viver um
momento de desaceleração, quero pé no chão, quero apagão por um dia nas
conexões virtuais. Quero fazer bolo, tomar café com as pessoas que gosto sem
competirmos com telas, quero fotos dos nossos encontrinhos em polaroide para
termos a surpresa de como vai sair, e não ficar tirando várias fotos até todos
ficarem perfeitos. Quero a imperfeição perfeita da vida real.
E estou buscando isso, tentando conciliar com a
minha profissão, que ao contrário do que quero, me empurra para um ritmo
desumano.
Curiosamente, comentando com a estagiária de 19
anos (nascida em 2004, um belo exemplar de Geração Z) sobre a saudade que
fiquei ao olhar as fotos do meu primeiro instagram, criado em 2011, que é
repleto de fotos com filtros que hoje são retrô. Sim, já somos vintage, segundo
a estagiária, e ela toda empolgada me falou que os amigos dela estão buscando
resgatar esses costumes e me mandou uma artigo Nostalgia vs. Nowstalgia, andWhy Both Matter in 2022 vale a pena a leitura.
Nesse artigo, aprendemos que existe um nome para
quem tenta reviver momentos não vividos pela geração atual, ou seja, o mesmo
que fazíamos com a geração dos nossos pais e avós, o nome é “Nowstalgia”,
conceito criado em 2016 pela agência de publicidade (tinha que ser) Madwell.
E então, o que achou em descobrir que já somos
vintage?
Monday, January 15, 2024
Apagar pra quê?
Do nada resolvi arquivar todas as fotos do meu instagram.
A estagiária de 19 anos que senta ao meu lado comentou "isso é tão Geração Z" e esse comentário somou outra pergunta a que eu já tinha.
Porque senti essa necessidade de esconder minhas fotos? Porque essa atitude é "tão gZ"?
Comecei a ocultar as fotos, são ao todo 1.498 fotos, são 12 anos de histórias, e fui lembrando dos momentos vividos a cada foto arquivada, isso me fez lembrar que essa era a função dos álbuns, registrar momentos chaves para que, quando fosse visto fosse lembrado.
Acho que na verdade o que me fez querer arquivar foi a vontade de me desconectar desse mundo frenético, onde todos são lindos e perfeitos. Sinto vontade de desacelerar, de nadar contra. Nunca entendi os motivos de eu sempre querer ir no contrafluxo.
E essa geração nova, porque são mais offline? Ainda nem viveram tempo suficiente pra ficarem saturados. Ou fomos nós quem os saturamos, exibinduos para pessoas que nem conhecemos, e sem ao menos nos questionar se eles gostariam dessa exposição toda? Seguimos os exemplos dos nossos pais, em fazermos do outro nossa propriedade até obterem a maior idade.
Enquanto arquivo minhas fotos relembro que fui, quem sou e como estou.
Bora vê quanto tempo isso vai durar.
Wednesday, July 06, 2022
Que loba, que nada.
Só vim aqui deixar registrado o que se passa comigo nessa nova década de vida.
Querido diário, não se passa nada e ao mesmo tempo tudo.
Me encontro em um limbo. Solta ou presa em um vazio, sensação difícil de descrever.
Diferente de outras épocas, hoje não estou nem feliz e nem triste por estar mais próxima da idade desejada que são os cinquenta.
Outrora eu celebraria com pelo menos um bolinho, mas dessa vez eu só desliguei e queria que ninguém mais lembrasse.
Minhas expectativas para essa nova idade era que eu tivesse uma explosão de ideias e soluções para problemas antigos, mas o que veio foi apatia, é, acho que essa é a palavra certa para como estou me sentindo. Apática.
Enfim saí da fase que nem jovem nem velha, agora estou na fase do nem tão velha assim, mas sem espírito jovem para viver coisas.
E foi assim que quarentei apática. e sem apetite.
[um registro para a posteridade]
Sunday, January 23, 2022
Somos no futuro o que brincamos na infância.
A maternidade nunca foi um plano, e nunca me julguei ou cobrei por essa escolha. Desde pequena as minhas brincadeiras sempre foram interpretando uma mulher de negócios, alguém que trabalhava fora, lembrando que eu fui criança nas décadas de 80 a 90, nenhuma mulher da minha família trabalhava fora, mas minha avó tinha o dinheiro dela de alugueis que ela recebia, então, quem era meu exemplo? Até hoje não sei. Talvez eu só tenha nascido assim, tenha nascido para ser dona de mim, viver para mim.
Bom, essa minha busca por trabalho começou cedo, olhava os classificados com uns doze anos de idade, eu tô chutando essa idade já que não tenho certeza da época, mas lembro claramente que a idade limite para contratação era até os 30 anos, isso ficou bem marcado na minha memória porque era escrito nos jornais que a vaga era para mulheres até os trinta, mas a preferência era para quem tivesse 25 anos, e na época já era cobrado o grau de instrução 'Ensino Médio completo' e claro, datilografia, e lendo em voz alta uma dessas vagas, minha tia disse "quando for a tua vez, já vão estar exigindo ensino superior" e ela estava certa, as vagas para mulheres só eram duas, babá ou secretária de escritórios, normalmente de contabilidade.
Eu acordava cedo para assistir Pequenas Empresas & Grandes Negócios, fiquei feliz em saber que ainda passa na tv, inclusive, vou tentar assistir o próximo.
Estou aqui, finalmente com coragem de me assumir dona do meu negócio, depois de ter trabalhado por 19 anos como CLT.
Silêncio.
Lembro quando comecei a escrever aqui, neste canal. Foi em 2006 que resolvi tentar escrever, e a tentativa era desanuviar o vulcão de pensamentos que sempre tive. Hoje vejo que sou ansiosa, mas antes não entendia, a sorte era que eu sempre escrevia em diários, tudo que me incomodava, hoje não tenho disposição para diários e como podemos ver, nem blog, já que tem um tempo que não apareço por aqui.
Em 2006 eu estava com 24 anos,
tinha acabado de entrar na faculdade, nem acreditava que estava conseguindo
sair da bolha que minha família vive, estava começando a andar por diferentes
caminhos. Cursava Publicidade e Propaganda, como sempre não sabia direito se
queria mesmo isso, só sabia que queria um ensino superior, queria a chance de
uma vida melhor.
Hoje, na beira dos meus 40
anos, tenho uma imensa felicidade em olhar pra trás e ver que tudo que fiz e
vivi , foi bem aproveitado, não carrego arrependimentos, carrego nos três
fios brancos da minha cabeça, muito aprendizado, e sigo no aguardo de mais
experiências, conhecimentos e realizações.
Ando calada, minha mente mais
calma, sem a efusividade de outrora, só a noite, antes de dormir que me vem a
mente algumas inseguranças, incertezas que durante o dia somem. Por isso tanta
gente tem medo da noite, tem medo da hora de dormir. Na escuridão que vem o
bicho papão do adulto, o monte de "e se... mas... se não der
certo..." Mais recentemente, um simples, ingênuo comentário de um grande
amigo ajudou a pesar ainda mais a hora de dormir, ele perguntou dentro do
contexto da nossa conversa, quantos anos eu ia fazer esse ano, então respondi “40”
e ele “Puxa! tens que te mexer rápido” esse comentário caiu como uma granada no
meu cérebro. O contexto da conversa¿ Eu tô prestes a dar um salto maior que as
pernas, comprar enfim minha casa, um lugar que eu vou poder, um dia, chamar de
meu.
Óbvio
que eu sempre sonhei e me vi na fase madura morando em um apartamento, em um
apartamento meu e sozinha, mas o processo até lá tá sendo muito longo, mais do
que eu imaginei – claro que, quando imaginei isso, eu não fazia a menor ideia
do que era ser uma pessoa adulta, responsável financeiramente por mim, e claro,
não imaginei uma pandemia na minha vez – e sendo um processo demorado e ainda ouvir
esse comentário me senti fraca, estou me sentindo incapaz, impotente, e olho para
trás e aí mesmo que o peso da minha idade me puxa, porque na real, eu não me
sinto pré-meio século, porque, ao completar quarenta anos estarei só há dez
distante dos sonhados cinquenta. E aqui estou, sem ter construído o império que
queria ter construído.
O
objetivo hoje, neste domingo, é decidir, se vou me arriscar em comprar um
apartamento ou se vou segurar mais esse dinheiro, pois, além de pandemia, a
democracia do Brasil está ameaçada, e aí, posso mudar de rota, e quem sabe ir
para outro país, esse é meu plano B criado agora, nesse momento.




