Wednesday, September 23, 2026

Caixas de lembranças



Vim para essa plataforma com o objetivo de relaxar, me reconectar, e isso, para uma canceriana, é tipo abrir caixas de lembranças, relembrando momentos através de fotos, músicas, textos... E isso me levou a olhar link por link dos blogs que eu seguia na época. Hoje, essa lista de favoritos compartilhada aqui na página é chamada de blogroll.

Com saudosismo, fui vendo um por um: uns fechados, muitos abandonados. Alguns me deram curiosidade de procurar o Instagram para saber como está a vida dessas pessoas nos dias de hoje; alguns comecei a seguir. Pensei até em mandar uma mensagem dizendo: “Oi, tudo bem? Passando por aqui para te acompanhar nessa rede, já que o blog foi esquecido.” Já pensou que onda nostálgica eu poderia desencadear? Ou não.

Bom! O importante é que, em mim, está tendo o efeito desejado: estou me revisitando, lembrando com felicidade da época em que sonhar era fácil e leve.

Lembrei que era gostoso entrar de blog em blog, ver o que as pessoas fotografavam, ler o que sentiam, o que esperavam. Era uma espécie de corrente do bem. Sinto falta dessa corrente. Poucos mantêm esse espírito, como a Lolla, a Mel — sim, com menos assiduidade, mas ainda é possível acompanhar.

Algumas fizeram questão de atualizar o visual; agora, com poder aquisitivo melhor, investiram em templates novos. Criaram páginas com nomes atualizados, como dailyblog. Tem até um projeto para reunir blogueiros: o projeto [EntreBlog], idealizado por Bárbara Moretti, do blog [BMRTT].

Sinto necessidade de sair da onda violenta de tecnologia, informação e imediatismo do mundo atual. Quero voltar ao que faz sentido para mim e vou começar pelos blogs.

Acumuladora de sonhos




Só hoje consigo sentir o peso desses pequenos sonhos não realizados.

Na infância, eu brincava de professora. Aos 18, tive que procurar trabalho por uma série de acontecimentos da vida de alguém que não tem suporte familiar. — Ainda bem que consegui trabalho rápido. — Mas, por isso, eu fui abandonando os estudos, que já não eram dos melhores.

Aos vinte e poucos, fui fazer supletivo — incentivada por um namorado mais novo que estudava para entrar no ITA — para, pelo menos, concluir o ensino médio. Não lembro se concluí pelo supletivo ou pelas vias normais. Tenho esse período meio nebuloso.

Aos 22, sentada à mesa de jantar com pessoas formadas, me perguntaram o que eu fazia, e eu respondi: “Sou vendedora no shopping”. E eles insistiram: “Não, em que você vai se formar?”. Eu, constrangida, fiquei calada, e meu namorado — que, nessa época, era outro — respondeu alguma coisa, quebrando aquela situação.

Mas isso me despertou para alguma coisa. Eu fui picada pelo bichinho da vergonha.

Então veio a faculdade, um curso escolhido do nada, no dia da inscrição do vestibular, só pra tentar. Acabei passando e cursando.

E aí a vida foi acontecendo: trabalho, faculdade à noite, nada fora do normal na vida do brasileiro que consegue, de alguma forma, driblar as intempéries da vida.

Eu não consegui ser professora. Não consegui ser escritora. Inclusive, nunca consegui superar a minha falta de clareza na organização das ideias. Em retrospecto, vejo que fui muito bem em desenrolar a minha vida, mas isso me tirou alguns sonhos.

Hoje, aos 44 anos, olho com tristeza para a minha falta de criatividade e de comprometimento com a minha parte criança. Onde foi parar aquela menina que escrevia em vários cadernos, sonhando um dia ser escritora, professora, viajante, dona de padaria, fotógrafa e muitas outras coisas?

É muito fácil se sentir pouco desenvolvida intelectualmente, já que todos os dias eu cruzo com pessoas altamente criativas nas redes sociais. Eu sei que tenho arcabouço cultural para discorrer sobre vários assuntos, mas eu culpo a urgência de praticidade da minha vida por não liberar meu cérebro para atividades como essas: criar conteúdos que inspirem outras pessoas, como os blogs que leio por aqui.